Instituto Bel France

 
  Memórias de um repórter da TV (l) - Gilson Ribeiro
16/12/2010
 
     
 

Aprendendo a jogar

Descasca! Foi assim que o cidadão brasileiro Romário de Souza Faria deu sinal verde para minhas tantas perguntas. E eu descasquei. Era véspera da decisão da Copa do Mundo, 16 de julho de 1994, e lá estava eu, no décimo primeiro andar do Hotel Marrriott (salvo engano)em Pasadena, ao lado de Los Angeles, escutando de um baixinho, genial e abusado, que no dia seguinte fatalmente seria campeão do mundo. Comigo estavam o repórter cinematográfico Agnaldo Rocha e minha mulher Marisa Ribeiro. A agonia estava terminando. Agonia sim, pois a Copa dos EUA, com certeza, foi um dos trabalhos mais exaustivos que já realizei nos 30 anos que exerci o jornalismo esportivo.

Nem mesmo os bons ares da Califórnia, a liberdade cultural da cidade de São Francisco, conseguiram amenizar o desgaste acumulado ao longo dos dois meses que me entreguei à cobertura. Desta maneira a seleção brasileira conseguia chegar à final contra a Itália, e na verdade, contra tudo e contra quase todos. Digo isso por fazer parte do quase, pois sempre acreditei no trabalho realizado pela comissão técnica, em especial no treinador Carlos Alberto Parreira. É incrível como a imprensa brasileira se torna passional quando se envolve na Copa do Mundo. Existem os baba-ovos, que dizem amém para tudo, ânsia de privilégios, e outros que são do contra, talvez na tentativa de demonstrar erroneamente uma certa independência. Tudo acaba gerando sufoco e pressão.

Era evidente que o time do Parreira não jogava um futebol bonito, vistoso, “à altura de nossas tradições”. Tipo o time de Telê Santa em 1982 na Espanha. Não tínhamos o mais importante: um meio de campo técnico e criativo. O jogador Raí, grande esperança, teve uma queda de rendimento brutal, tanto que perdeu a posição para Mazinho. Sendo assim, Parreira fazia o que podia, ou como dizem nossos tão criativos comentaristas “fazia omelete com os ovos que tinha às mãos”. Enquanto o velho lobo Zagallo respondia às criticas com veemência, bem ao seu estilo, Parreira dava aulas de cavalheirismo.

Quando o Brasil enfrentou, se não me falha a memória, a Suécia em Detroit, encontrei o treinador brasileiro às 4 da madrugada, insone no saguão do hotel. Foi ele que se aproximou curioso sobre os atrativos noturnos da cidade. Falamos sobre música negra, a gravadora Motown criada ali, indústria automobilística, sobre boxe. Notei que ele estava tenso e tentava relaxar, por isso não comentei sobre o jogo. Na despedida não me contive e perguntei como ele suportava tanta porrada daquela maneira altruísta. Ele respondeu cantarolando a música eternizada pela Elis Regina que diz mais ou menos assim: “vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”. Na vida, basicamente temos que aprender a jogar. Depois daquele dia comecei a respeitá-lo ainda mais, ao contrário de alguns companheiros que o malhavam sem piedade. Na ânsia de mostrar um trabalho diferenciado, sem ufanismo que sempre cercou as coberturas da Rede Globo, onde também trabalhei quase 10 anos, os comentaristas da Rede Bandeirantes pegavam pesado, principalmente no programa noturno Apito Final. Conclusão: os jogadores se uniram num boicote contra nossa equipe. Poucos davam entrevistas e quando falavam eram lacônicos.

Sem subserviência, apenas com ética e respeito, consegui angariar de novo a confiança de todos. Inclusive da estrela do time, o Romário. Na Copa anterior, na Itália, acompanhei seu martírio e solidão. Nos tornamos amigos. Por isso o “Baixo”, que não dava entrevistas para mais ninguém, comigo abria exceção. Também falava para o Tino Marcos, da TV Globo, e com o Gilmar do Jornal do Brasil. Isto bastou para que alguns companheiros, menos o José Luís Datena, passassem a me ver como um traidor. Não admitiam que eu estivesse do lado da seleção. Jamais vou esquecer aquela noite de 16 de julho, véspera da decisão. Ele falou sobre sua vida, emitiu opiniões, sobre sua personalidade controversa, seu gosto pela noite, sua origem pobre e até do seqüestro do pai meses antes. A entrevista foi ao ar na manhã seguinte, dia do jogo, abrindo o programa Show de Esportes. A inveja era tanta que muita gente tentou omitir o “furo” que tinha conseguido, quando nem tinha sido pautado para isso. Acabei vendo a decisão no campo, atrás do gol, fingindo de câmera, pois repórteres são proibidos nos gramados, sofrendo muito na hora das penalidades. Ao longo do tempo normal, Romário muito bem marcado, não fez uma grande partida, mas pediu para cobrar o pênalti e converteu. Foi ali que saquei que ele representava um Brasil diferente, como jogador de futebol. Agora o cidadão Romário foi eleito deputado federal (PSB) pelo Rio de Janeiro com quase 150.000 votos. Num país de tantas denúncias de corrupção, espionagem, escutas telefônicas, punhado de dólares nas cuecas, espero que o baixinho abusado demonstre a mesma transparência, sinceridade e talento que demonstrava enquanto jogador. E que continue um polemista!
Enquanto continuamos tentando aprender a jogar contra tantos canalhas!Descasca, Romário!

Gilson Ribeiro, 52 anos, é jornalista, tendo trabalhado na Rede Globo e na Rede Bandeirantes onde cobriu 5 Copas e 5 Jogos Olímpicos.

 
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